sábado, 7 de abril de 2012

Zé Leonel - Conta Estórias (Daquelas que eu vi) - Biografia



Esta é a biografia de Zé Leonel, contada por ele mesmo, editada em Junho de 2010 pela Chiado Editora. Zé Leonel faleceu no ano seguinte, em 21 de Abril. Aqui fica um texto da BLITZ, assinadopor Lia Pereira, que recorda o percurso de Zé Leonel:

Zé Leonel: a história de um dos primeiros punks portugueses

Peça central dos primeiros anos dos Xutos & Pontapés e líder dos Ex-Votos, Zé Leonel faleceu hoje, 21 de abril, vítima de cancro. Recorde o seu percurso.
Zé Leonel , músico que integrou a primeira formação dos Xutos & Pontapés, ainda enquanto Delirius Tremens, morreu esta quinta-feira (21 de abril), vítima de cancro do fígado. A BLITZ recorda alguns dos momentos mais importantes do percurso do músico que viria, também, a liderar os Ex-Votos , criando ainda os projetos Amor de Perdição e Zé Leonel + IVA.

" O punk, para mim, não me trouxe nada de novo ", dizia Zé Leonel em 2008, em entrevista ao site Nova Guarda . "A família, a igreja, a polícia e o estado são um quadrado - isto era o lema punk, mas antes do punk já era o meu. Nunca vivi com pai e mãe, não era batizado pela Igreja e por isso excomungado por ela, estava sempre a comer porrada da polícia e o estado nunca me defendeu. Por isso, para mim não só era fácil ser punk, como dava cartas nessa área", explicava. "Nos Faíscas era apenas isso, uma espécie de megafone entre o público a realçar as palavras de ordem (a minha função nos Faíscas era ser o 'animador cultural')".

Uma das primeiras bandas do punk português, os Faíscas deram o último concerto a 13 de janeiro de 1979, data em que se assinala o nascimento dos Xutos & Pontapés . Foi nessa mesma noite, e na mesma sala - os Alunos de Apolo, em Lisboa - que o grupo de Zé Pedro deu o primeiro concerto: uns suados 10 minutos que ficaram para a história.

"Foi algo que aconteceu, em 13 de Janeiro de 1979, a uma velocidade superior ao que a mente consegue processar", descreveu Zé Leonel ao Nova Guarda. "Sei que tocámos temas como: 'A Tua Namorada', 'Não Me Chames Herói (Chama-me Nº 1)', 'Sexo', 'O Freak e a Freak', 'Sacaninha'...mas pouco me lembro mais. Por outro lado não me esqueço que consegui ir a umas escadas próximas dar uma queca na Cristina e que um repórter se zangou comigo por eu, em cima do palco, ter dito que comia a namorada dele".

Zé Leonel foi vocalista dos Xutos & Pontapés entre 1978 e 1981 , abandonando o grupo antes do primeiro longa-duração da banda. Foi ele que ajudou a escrever "Sémen", inspirada pelo nascimento da primeira filha.


Contava Zé Leonel ao jornal BLITZ, em 1992: "Eu na altura que fiz essa música engravidei uma moça e ela teve uma criancinha, a minha filha . O 'Sémen' e o 'Papá Deixa Lá' são-me queridas porque assinalam a história do meu rebento".


temperamento de Zé Leonel é ilustrado da seguinte forma por Zé Pedro, outro dos fundadores dos Xutos & Pontapés, na biografia Conta-me Histórias , de Ana Cristina Ferrão: "O Zé Leonel era da Encarnação, era um gajo louco, excitado por si próprio , mesmo antes do punk já era destravado, já tinha uma filha com três anos e nem era de mamar muitos copos".

Além das músicas que ajudou a escrever, Zé Leonel era conhecido pelo seu caráter empreendedor e pela grande capacidade de improviso , ao leme dos Xutos & Pontapés.

Em Conta-me Histórias , escreve-se que, em 1979, os Xutos tocaram numa feira de artesanato próxima do Casino Estoril. Como tiveram a ideia? "Ninguém sabe. Falaram com o Zé Leonel e ele entrou logo numa de comerciante: ' Bem, para quatro concertos, são 600 contos '. O homem respondia encabulado: 'Não sabia que era tão caro!?'. 'Então quanto é que estava a pensar pagar?' - perguntava o Zé Leonel sem se desmanchar, mantendo o perfil de 'executivo'. 'Olhe que esta banda vale milhões!'. 'Aí uns 50 contos'. 'Serve, serve!'".

Na mesma obra, Tim reforça o papel central de Zé Leonel nos primeiros anos dos Xutos. " Era o Zé Leonel que arranjava os concertos, que fazia os cartazes à fotocópia , era ele que arranjava as letras, era ele que ia chatear o outro gajo não-sei-lá-onde, era ele que discutia o quem-toca-primeiro-quem-toca-depois, era ele que tratava dos dinheiros. Ele era assim, tinha muito jeito. Podia faltar a um ensaio, ou não fazer nada um dia, mas no próximo já havia duas letras prontas".

Tim, então apenas no baixo, viria a substituir Zé Leonel na voz, aquando da saída deste. "Ele vivia ali ao pé do Camões, em casa da tia (...). Como ele não aparecia [nos ensaios], estava a ficar desligado da evolução da banda ", recorda Tim em Conta-me Histórias .

"Depois da cena inicial, o grupo teve quatro meses em que o nosso gozo de ser banda era ensaiar", acrescenta Zé Pedro "Foi na altura em que fizemos o 'Avé-Maria', as músicas mais complexas. O Zé Leonel por loucura e por coisas, sou-artista-já-estive-em-palco, começou-se a baldar, a perder a dedicação . Era vocalista dos Xutos mas estava sempre fora, não aparecia nos ensaios, andava naquela onda com amigos atrás...".

"A saída do Zé Leonel foi o resultado de um afastamento natural", recorda Tim. Em março de 1981, Zé Leonel deixava de ser vocalista dos Xutos , cujo primeiro álbum, 78/82 , sai em 1982.

11 anos depois de sair dos Xutos três anos após criar os Ex-Votos, Zé Leonel comentava o "equilíbrio de forças" na antiga banda, em entrevista ao BLITZ. "O Kalu não era punk, era um tipo que tinha amigos punks, imagens... O Zé Pedro era punk, o Tim provavelmente era a pessoa que menos tinha a ver com isso tudo e mais com a música. Eu era um gajo filho de pais separados, criado na rua, dava-me com ciganos e tinha problemas religiosos. A minha família era da religião do Foda-se. Tudo isto se refletia na minha performance dos concertos", considerava. "Eu fazia um papel que ainda hoje recordo, que era o de bater nas pessoas todas. E eram muitas - mas ninguém se mexia, era uma atitude punk e eu estava ali era ajavardar".

Nesta altura, os Ex-Votos davam muitos concertos apesar de não terem qualquer álbum lançado, notava o BLITZ. A situação mudaria com Cantigas do Bloqueio , um disco produzido pelo antigo colega Tim, e no qual se incluía o êxito "Subtilezas Porno-Populares" , popularmente conhecido como "Pimba!".

Ao jornal BLITZ, em 1995, já em promoção do segundo disco, Benditos Sejam , também produzido por Tim, Zé Leonel refletia sobre o sucesso de "Subtilezas Porno-Populares".

"Trouxe-nos uma sensação estranha. Teve as vertentes todas. Penso, de vez em quando, que o 'Pimba!' nos empurrou para o lado que nós não queríamos. E não fomos, só que nos tentaram catalogar. Eu estou a aprender isto, sabes? Com esta cara e com estes anos todos ainda estou a aprender como é que este meio funciona. Começo a achar que um gajo vender mais do que 500 discos é um problema".

"No caso das 'Subtilezas Porno-Populares' - que é assim que se chama -, comecei a sentir isso. Comecei a sentir que as pessoas que gostavam do tema, da maqueta e enchiam os locais dos concertos, começaram a reagir de forma diferente depois do sucesso do disco. Isso foi estranho mas, por outro lado, permitiu-nos dar mais concertos do que contávamos e chegar a mais pessoas", explicava a Pedro Gonçalves.

Em Benditos Sejam , os Ex-Votos buscavam um som mais português, nomeadamente através da introdução do acordeão. "É um instrumento muito nosso, muito português. É incrível como há mais gente que sabe tocar acordeão do que baixo". Da discografia dos Ex-Votos constam ainda Cantigas do Faz de Conta (lançado, em 1997, pela BMG) e Cantigas da Vida , de 2001.

Na entrevista ao Nova Guarda, Zé Leonel confessava sentir "orgulho de ter fundado a chispalhada" , referindo-se aos Xutos. "Mas também sinto [orgulho] por ter estado na génese dos Heróis do Mar e dos Peste & Sida e de ter feito os Amor de Perdição e os Ex-Votos, para além de dar as duas mãozinhas aos miúdos que começam agora. O rock, para mim, não é um negócio; é uma opção de vida - o amor! ".

Em 1995, já à frente dos Ex-Votos, garantia ao jornal BLITZ não se arrepender de ter saído dos Xutos: "Todas as pessoas precisam de comer, de ter um amanhã. Eu, na altura, não tinha hipótese de sobreviver se não procurasse ganhar dinheiro para o meu sustento. Eu morava numa tenda. Por outro lado, se tivesse ficado, talvez hoje não nos pudéssemos aturar uns aos outros".

Zé Leonel esteve ainda ligado ao teatro e ao cinema e, aos 40 anos, entrou no curso de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa. Em 2010, lançou Estórias (Daquelas que eu Vi) , uma biografia . Nela, escreveu: "Este livro é dedicado a todos os músicos que trabalham onde não querem, poupando para adquirirem o seu equipamento, que gastam o seu tempo ensaiando, que criam e executam às vezes com um esforço desumano e depois são obrigados a pagar para mostrar o seu trabalho. A esses, peço-lhes que nunca desistam, porque com a nossa luta a música, a arte em Portugal acabará por conquistar o espaço que é seu por direito".


Lia Pereira

Aqui fica o link para aceder à página da BLITZ:

http://blitz.sapo.pt/ze-leonel-a-historia-de-um-dos-primeiros-punks-portugueses=f72825

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